A DINÂMICA DAS CONTRADIÇÕES E O IMPASSE DA ESQUERDA INSTITUCIONAL

 



A DINÂMICA DAS CONTRADIÇÕES E O IMPASSE DA ESQUERDA INSTITUCIONAL

Por Prof. Marcello Crowley

A compreensão das contradições ocupa um lugar central na tradição marxista e constitui, mais que um conceito, um método de análise da realidade social. Marx e Engels demonstram que o capitalismo é sustentado por antagonismos estruturais que emergem do próprio processo produtivo. A sociedade não se organiza de maneira neutra ou harmoniosa: ela se move porque seus elementos internos se chocam, disputam e se transformam mutuamente. Lenin, ao analisar as condições do início do século XX, mostrou que a contradição principal de uma sociedade é aquela que orienta o sentido dos demais conflitos, definindo quais forças se confrontam e com que intensidade. Mao, mais tarde, desenvolveu de forma sistemática essa lógica ao afirmar que toda contradição possui dois aspectos que variam conforme a luta social se intensifica ou se reconfigura historicamente.

Compreender a formação da contradição significa compreender a própria formação das estruturas sociais. No capitalismo, a contradição nasce da relação entre capital e trabalho. A extração de mais-valor — fundamento da acumulação capitalista — exige a exploração da força de trabalho e, por isso, estabelece um antagonismo permanente. Esse antagonismo não é um acidente, tampouco algo que possa ser eliminado por meio de reformas. Ele constitui a essência do modo de produção, determinando as formas de vida, as instituições e as relações políticas. A contradição é a base que estrutura todas as demais tensões: desigualdade, luta por direitos, disputas ideológicas e crises periódicas.

A transformação da contradição ocorre pela luta. Não há desenvolvimento histórico sem conflito. Os polos de uma mesma contradição não permanecem fixos; o aspecto principal pode tornar-se secundário e vice-versa, a depender dos movimentos da sociedade, da organização das classes e das rupturas históricas. Um processo de mobilização popular, por exemplo, pode deslocar o centro das disputas políticas, fazendo emergir novas prioridades e expondo limites antes invisíveis. A contradição não é estática: ela pulsa, avança e se reorganiza de acordo com as forças em disputa.

É justamente nesse ponto que se observa o impasse da esquerda institucional contemporânea — PT, PSB, PSOL, PCB, PCdoB, PCO, PSTU e outros agrupamentos que orbitam esse campo. Ao longo das últimas décadas, essas organizações passaram a operar prioritariamente dentro da institucionalidade, moldando sua atuação às exigências da ordem política vigente. Essa escolha não é apenas estratégica; torna-se epistemológica. Ao concentrar esforços na administração de conflitos e na negociação de demandas setoriais, essas organizações deixam de lidar com a contradição principal da sociedade capitalista.

Quando a política se converte em gestão, a contradição é neutralizada. As disputas deixam de ser orientadas pela estrutura da luta de classes e passam a se organizar em função da governabilidade, da composição de maiorias parlamentares, da construção de alianças amplas e, sobretudo, da manutenção da estabilidade institucional. Esse deslocamento produz uma mudança profunda: a contradição fundamental — entre capital e trabalho — perde centralidade, enquanto aspectos secundários passam a ocupar o lugar que deveria ser do antagonismo principal.

Essa neutralização tem consequências. A crítica perde potência, transformando-se em disputa interna por espaços, por nuances programáticas ou por hegemonias de curto prazo dentro da própria esquerda institucional. A tensão produtiva que deveria gerar novas sínteses históricas acaba enclausurada em debates de formato, linguagem ou estratégia eleitoral. A contradição, em vez de impulsionar transformações, é convertida em tema administrável, algo que pode ser negociado ou adiado indefinidamente.

Todavia, a contradição não desaparece pelo simples fato de ser negligenciada. Como ensina o materialismo dialético, as contradições que se acumulam e não encontram saída institucional tendem a emergir em outras formas: crises econômicas, insurgências populares, novas organizações políticas e mudanças abruptas no cenário social. O refluxo das organizações tradicionais não esgota a energia da contradição; ele apenas desloca o terreno onde ela se manifesta. É nesse espaço que podem surgir novas práticas políticas, novos sujeitos sociais e novas leituras teóricas capazes de interpretar e orientar o movimento real.

As contradições, portanto, não são obstáculos acidentais: são o motor da história. O questionamento que permanece é direto e incontornável: quem será capaz de compreender sua profundidade, organizar suas forças e transformá-las em caminho histórico? Em uma conjuntura em que a esquerda institucional se distancia crescentemente da contradição fundamental que a originou, a resposta não emerge dos gabinetes, mas das tensões vivas da própria sociedade.

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