A falência da esquerda eleitoral e a necessidade de romper com os partidos que administram a ordem burguesa



A falência da esquerda eleitoral e a necessidade de romper com os partidos que administram a ordem burguesa
Por Prof. Marcelo Pacce
A experiência brasileira recente expõe de forma nítida o esgotamento da via eleitoral como estratégia de transformação social. O voto, vendido como mecanismo de participação democrática, converteu-se em instrumento de manutenção da ordem vigente. Em vez de servir ao proletariado, alimenta uma engrenagem que preserva privilégios, acomoda burocracias partidárias e desmobiliza a ação direta das massas. A cada ciclo eleitoral, renova-se a promessa de mudança, mas o resultado é a reafirmação do mesmo sistema que condena milhões à miséria.
O Partido dos Trabalhadores (PT) simboliza esse processo com clareza. Sua trajetória demonstra como um partido que se apresentou como representante do proletariado tornou-se gestor cuidadoso do capitalismo brasileiro. Como aponta Singer (2012), o partido incorporou práticas de governabilidade que dependem da conciliação com a elite econômica, com a mídia hegemônica e com setores conservadores do congresso. Ao aceitar essas regras do jogo, o PT assumiu para si o papel de estabilizador do sistema, abandonando qualquer horizonte revolucionário. As massas, relegadas ao segundo plano, servem como base eleitoral, não como sujeito histórico.
O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) seguiu um caminho semelhante. A antiga retórica sobre a revolução democrática popular desapareceu diante da necessidade de alianças parlamentares. Como observa Carvalho (2020), transformou-se em satélite fiel de governos centristas. A defesa da participação eleitoral e da institucionalidade burguesa tornou-se seu núcleo estratégico. Em vez de organizar o proletariado, o partido administra mandatos, negocia cargos e se adapta sem resistência ao esquema eleitoral que deveria combater.
Entre os partidos satélites que se apresentam como “revolucionários” – PCO, PCB, PSTU, UP – a situação não é muito diferente. O PCO, embora use linguagem agressiva, é completamente dependente da lógica eleitoral, vivendo de campanhas permanentes que buscam votos que nunca chegam. O PSTU, como já analisado por Santos (2019), mantém uma postura de oposição automática que pouco dialoga com a realidade popular, mas ainda assim deposita fé nas eleições como forma de “educar a classe”. O PCB luta para reinventar-se, mas permanece preso a disputas internas e à busca por visibilidade eleitoral. A UP, mesmo jovem, adotou desde o início a estratégia de disputar cargos na democracia burguesa.
Essas organizações, apesar de se declararem socialistas, vivem do processo eleitoral, da institucionalidade e do fundo partidário. Dependem da ordem burguesa para existir. Rejeitam a luta política construída a partir da ação direta, da organização das massas, da construção de uma linha proletária independente. Reivindicam revolução em seus programas, mas defendem a urna como via legítima de transformação — ilusão criticada por Marx e Engels (1848) e desmontada por Lenin (1917), que compreendia o Estado burguês como instrumento a ser superado, nunca adornado.
O grande problema é que a política eleitoral sequestra a energia das lutas populares. Campanhas substituem organização; comícios substituem formação política; discursos substituem prática. A cada dois anos, toda a militância é chamada a defender a “alternativa menos ruim”, como se o objetivo fosse impedir retrocessos eternamente, e não avançar. Essa lógica destrói a autonomia do proletariado, transformando-o em massa de manobra.
Enquanto isso, o povo vive uma realidade brutal: desemprego estrutural, fome, violência policial, precarização e ausência total de direitos. A política administrada pelos partidos não enfrenta essas questões porque todos eles dependem do mesmo sistema que produz tais problemas. A vida concreta do proletariado é o que denuncia a falência dessa estratégia. Uma mãe da periferia que acorda às 4h para trabalhar não precisa de campanhas eleitorais: precisa de organização comunitária, solidariedade prática, enfrentamento político e construção de poder popular real.
Romper com a lógica eleitoral não é pregar o abstencionismo vazio, mas afirmar que a emancipação proletária não nasce da urna. A história demonstra isso: nenhum país rompeu com o capitalismo por meio de eleições. Todos os avanços reais vieram de organização popular, pressão, mobilização e confronto político direto com as classes dominantes.
A crítica à esquerda institucional, portanto, não é moral — é material. Partidos que sobrevivem do processo eleitoral não podem, por definição, romper com ele. São parte da ordem que pretendem transformar. Sua existência depende da continuidade do sistema burguês. Por isso, não há como esperar que sejam instrumentos de emancipação.
O caminho que resta ao proletariado é outro: retomar sua independência política, organizar-se fora da institucionalidade, rejeitar a conciliação e reconstruir práticas de solidariedade e luta que devolvam às massas o protagonismo histórico. A libertação não será autorizada pelo tribunal eleitoral, e sim construída pela ação coletiva daqueles que nada têm a perder, mas tudo têm a conquistar.
Referências (ABNT)
CARVALHO, A. P. A mutação programática do PCdoB. São Paulo: Expressão Popular, 2020.
ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Boitempo, 2010.
LENIN, V. I. O Estado e a Revolução. São Paulo: Boitempo, 2017.
SANTOS, R. D. Partidos de esquerda e teatralização da política no Brasil. Rio de Janeiro: UFRJ, 2019.
SINGER, André. Os sentidos do lulismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

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