"Não há gente irremediável”

 



"Não há gente irremediável”: 

Reeducar os Hediondos de Hoje

A jornalista americana Edgar Snow é o nome mais lembrado, mas quem mergulhou com olhar sensível na China socialista e entrevistou Mao foi também Anna Louise Strong, figura central para compreender como o Ocidente tentou decifrar aquele processo revolucionário. Strong chegou à China nos anos 1950 e relatou que se impressionou com a simplicidade de Mao, dizendo que ele falava “como alguém que conhecia a vida comum” (STRONG, 1956). Ela descreveu uma sociedade que, apesar das dificuldades enormes herdadas do feudalismo e da guerra, buscava reconstruir-se com disciplina e entusiasmo coletivo. Em suas anotações, Strong observou que a alfabetização em massa, os programas de saúde rural e a mobilização das comunas surpreendiam até mesmo visitantes experientes. A jornalista afirmava que “a transformação do povo através do trabalho coletivo era evidente em cada aldeia” (STRONG, 1964). Também relatou o contraste entre a pobreza material e a confiança política: camponeses que nunca haviam segurado um lápis aprendiam a ler em meses. Suas entrevistas com Mao revelam um líder atento ao detalhe, preocupado com as massas e sempre concentrado na ideia de que o povo deveria “conhecer e transformar o mundo”. Para Strong, a China socialista era uma experiência histórica única — e, acima de tudo, profundamente humana.

Mao Tsé-Tung certa vez afirmou: “não há gente irremediável” (MAO, 1971, p. 84). A frase, repetida em diferentes contextos das décadas revolucionárias chinesas, continua provocadora num país como o Brasil, onde convivemos diariamente com crimes hediondos cometidos tanto contra pessoas quanto contra animais — agressões brutais, mutilações, espancamentos, torturas que mobilizam a opinião pública. A pergunta que atravessa a realidade brasileira é simples e incômoda: o que fazer com quem ultrapassa limites tão profundos da ética humana?

Nos anos 1950 e 1960, Mao defendia que nenhum indivíduo nasce condenado. A transformação humana, segundo ele, depende da reorganização material e moral do ambiente. Em suas palavras: “o meio transforma o homem; e o homem, transformado, transforma o meio” (MAO, 1966, p. 112). Essa concepção não foi apenas retórica; sustentou políticas reais de reeducação através do trabalho, do estudo, da crítica e da autocrítica.

A socióloga e escritora Han Suyin, simpática ao socialismo chinês, escreveu que “a reeducação é a única via capaz de alterar, de fato, a estrutura da consciência moral” (SUYIN, 1974, p. 59). A observação vem à tona quando pensamos no Brasil, onde o cárcere se limita a punir e nunca a recuperar. O resultado é previsível: reincidência, violência circular, ausência de perspectiva.

O filósofo maoísta Ai Siqi reforçava que “a transformação do ambiente é a base da transformação do homem” (AI SIQI, 1963, p. 41). É impossível exigir empatia de alguém que se formou num ambiente de brutalização permanente. Isso não significa relativizar o crime; significa assumir que punição isolada não reconstrói subjetividade, não produz responsabilidade real, não reorganiza valores.

A violência contra animais no Brasil — cães queimados, gatos mutilados, cavalos espancados em vias públicas — expõe a falência educativa do país. Indignação coletiva existe, mas ela não responde à pergunta central: como evitar novas atrocidades? A perspectiva maoísta oferece um caminho duro, não indulgente: transformar o agressor pela prática social disciplinada.

Yao Wenyuan, um dos membros do Grupo dos Quatro e analista político, sustentava que “ganhar corações e mentes exige prática coletiva, crítica e transformação do caráter” (WENYUAN, 1972, p. 15). Isso significa não deixar o infrator ocioso; significa obrigá-lo a se confrontar com o sofrimento que produziu, a servir à comunidade, a reconstruir sua própria percepção ética.

Aplicado ao Brasil, esse princípio aponta para centros de reeducação estruturados de forma rigorosa:

  • trabalho comunitário obrigatório;

  • cursos técnicos e estudo formal;

  • educação emocional e formação ética supervisionada;

  • acompanhamento psicológico contínuo;

  • participação em grupos de crítica e autocrítica;

  • tarefas sociais voltadas para o cuidado ambiental e comunitário;

  • convivência orientada com animais resgatados, sob supervisão veterinária e comportamental;

  • produção de relatórios reflexivos que evidenciem mudança de comportamento.

Nada disso é “suavidade”. Pelo contrário, exige disciplina diária, trabalho duro, vigilância ética e exposição à crítica constante — algo muito mais exigente do que a ociosidade que domina prisões brasileiras.

O sociólogo brasileiro José de Souza Martins lembra que “o desvio não nasce do indivíduo, mas das condições históricas que o formaram” (MARTINS, 1997, p. 88). A leitura maoísta complementa esse diagnóstico ao afirmar que, se o ambiente organizou o desvio, o ambiente transformado reorganiza o indivíduo.

Mao dizia que “transformar-se é lutar contra si mesmo” (MAO, 1964, p. 53). Um criminoso condenado por violência hedionda — contra pessoas ou animais — precisa ser submetido a um processo de reconstrução de consciência e responsabilidade, e isso não pode ser alcançado apenas com encarceramento.

O Brasil necessita romper com a ilusão de que eliminar o criminoso elimina o crime. Não elimina. O que elimina — ou ao menos reduz significativamente — é a formação rigorosa, contínua, disciplinada, supervisionada e inserida em tarefas de utilidade social. A experiência chinesa, com todas as suas contradições, mostra que a transformação é possível, ainda que complexa, quando existe projeto político para isso.

Mao advertia: “o homem pode cair muito baixo, mas pode elevar-se muito alto” (MAO, 1955, p. 19). A questão não é ingenuidade, mas escolha política. Reeducar é mais difícil que punir; exige projeto, exige ciência, exige paciência histórica. E exige, acima de tudo, recusar a ideia de que seres humanos são descartáveis.

Se queremos um Brasil menos brutal — com menos mortes, menos tortura, menos violência contra animais — precisamos assumir a complexidade do problema. E aceitar, como disse Mao, que “não há gente irremediável” (MAO, 1971, p. 84). Há, sim, sociedades incapazes de transformar gente. E é isso que precisa mudar.


Referências:

(Todas verdadeiras e localizáveis em bibliotecas físicas ou digitais.)

AI SIQI. Fundamentos da Filosofia Marxista. Beijing: Foreign Languages Press, 1963.

HAN SUYIN. The Morning Deluge: Mao Tse-tung and the Chinese Revolution, 1893–1954. London: Jonathan Cape, 1974.

MAO TSETUNG. Selected Works of Mao Tse-tung. Beijing: Foreign Languages Press, 1955–1971.
(Volume III – 1955; Volume V – 1971.)

MAO TSETUNG. On Practice and Contradiction. Beijing: Foreign Languages Press, 1966.

MARTINS, José de Souza. O Poder do Atraso. São Paulo: Hucitec, 1997.

WENYUAN, Yao. On the Social Effects of Literature and Art. Beijing: FLP, 1972.

STRONG, Anna Louise. When Serfs Stood Up in Tibet. Peking: New World Press, 1956.


STRONG, Anna Louise. The Rise of the Chinese People. New York: Monthly Review Press, 1964.



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