A HERANÇA SOCIALISTA DE MAO ZEDONG NA CHINA CONTEMPORÂNEA

 



                                   A HERANÇA SOCIALISTA DE MAO ZEDONG NA CHINA CONTEMPORÂNEA

Prof. Marcelo Pacce

A compreensão da China atual exige revisitar o legado socialista construído por Mao Zedong entre 1949 e 1976. Mesmo após as reformas econômicas iniciadas no final da década de 1970, a estrutura política, ideológica e organizacional do país continua profundamente marcada pelo período revolucionário. Como afirma Maurice Meisner (1999), grande parte do edifício estatal da China contemporânea deriva diretamente da formação socialista conduzida pelo Partido Comunista da China (PCC) sob a liderança de Mao. Esse legado permanece atuante não apenas como memória histórica, mas como base efetiva do funcionamento do Estado chinês.

O pensamento Mao Zedong, consagrado oficialmente como um dos “guias fundamentais para a ação revolucionária” (COMMUNIST PARTY OF CHINA, 2022), reforça a ideia de que a luta de classes prossegue mesmo após a tomada do poder. Mao alertava que “novas formas de burguesia podem surgir” dentro do próprio processo socialista (MAO, 1967, p. 42). Esse princípio continua presente nos documentos do PCC, que defendem a vigilância ideológica como método de assegurar que o país mantenha sua orientação socialista.

No âmbito econômico, estudos como os de Brandt e Rawski (2008) demonstram que muitos dos avanços pós-1978 — industrialização pesada, formação de grandes setores estatais e construção de infraestrutura nacional — tiveram início antes das reformas de mercado. Da mesma maneira, Peter Nolan (2012) argumenta que a China não abandonou o socialismo, mas o adaptou à dinâmica do capitalismo global, mantendo controle estatal sobre setores estratégicos. Assim, mesmo a presença de mecanismos de mercado não elimina a herança socialista maoísta: ela se reorganiza em novas combinações.

Do ponto de vista político, a teoria da “linha de massas”, central no pensamento de Mao, ainda orienta a relação entre Estado, Partido e sociedade. Stuart Schram (1989) observa que a ideia maoísta de que o Partido deve buscar suas diretrizes na prática popular permanece inscrita nas orientações internas do PCC. Ching-Kwan Lee (2017) acrescenta que a forte presença do Estado e sua atuação como mediador do desenvolvimento derivam do modelo estabelecido durante a era Mao — modelo que continua moldando a governança chinesa no século XXI.

Autores contemporâneos, como Alice Ekman (2020), demonstram que a reafirmação do pensamento Mao Zedong na era atual funciona como elemento de legitimação para o Partido. Essa reafirmação não é apenas simbólica: permite que o PCC mantenha continuidade ideológica e reafirme a primazia da soberania nacional, da planificação e da direção proletária. Barry Naughton (2018) descreve a situação atual como um “socialismo de dupla lógica”, no qual coexistem mercado regulado e centralização estatal, gerando tensões que reacendem o debate sobre o caminho histórico da China.

Diante dessas contradições — expansão do setor privado, desigualdades regionais e desafios geopolíticos — o retorno a uma orientação mais coerente com o socialismo maoísta surge não como nostalgia, mas como reencontro com os fundamentos originais da Revolução Chinesa. Significa recuperar a centralidade do proletariado, fortalecer a planificação estatal e reaproximar o Partido das massas, retomando a perspectiva de que o desenvolvimento deve servir ao povo e ao projeto socialista, não a interesses de mercado.

Como dizia Mao, “a revolução não termina; ela se renova” (MAO, 1967, p. 58). Frente aos impasses do presente, a China encontra na herança maoísta não um passado distante, mas uma direção estratégica possível. O país pode — e deve — retomar o caminho socialista original, reafirmando seus fundamentos históricos para enfrentar os desafios do século XXI.

REFERÊNCIAS – ABNT

BLECHER, Marc. China: Politics, Economy and Society. New York: Routledge, 2020.

BRANDT, Loren; RAWSKI, Thomas (orgs.). China’s Great Economic Transformation. Cambridge: Cambridge University Press, 2008.

COMMUNIST PARTY OF CHINA. Constitution of the Communist Party of China. Beijing: Foreign Languages Press, 2022.

EKMAN, Alice. Xi Jinping’s China: The Ideological Core. Paris: IRSEM, 2020.

LEE, Ching-Kwan. The Specter of Global China: Politics, Labor, and Foreign Investment. Chicago: University of Chicago Press, 2017.

MAO, Zedong. Quotations from Chairman Mao Tse-tung. Beijing: Foreign Languages Press, 1967.

MAO, Zedong. Selected Works of Mao Tse-tung. Beijing: Foreign Languages Press, 1965–1977.

MEISNER, Maurice. Mao’s China and After: A History of the People’s Republic. New York: Free Press, 1999.

NAUGHTON, Barry. The Chinese Economy: Adaptation and Growth. Cambridge: MIT Press, 2018.

NOLAN, Peter. Transforming China: Globalization, Transition and Development. London: Anthem Press, 2012.

SCHRAM, Stuart. The Political Thought of Mao Tse-tung. New York: Praeger, 1989.

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