VIOLÊNCIA ESCOLAR, BULLYING CONTRA PROFESSORES

**VIOLÊNCIA ESCOLAR, BULLYING CONTRA PROFESSORES**
**Prof. Marcelo Pacce**

A realidade enfrentada pelo professorado na capital paulista já ultrapassa há muito tempo a esfera puramente pedagógica. O que acontece dentro das salas de aula tem cheiro, corpo e peso de vida real: é humano, profundamente humano — e doloroso. A violência psicológica que muitos docentes sofrem no cotidiano escolar, seja por meio de humilhações públicas, gravações mal-intencionadas, insultos ou desautorizações constantes, produz um processo silencioso de erosão emocional. Quando isso se torna rotina, até o professor mais apaixonado pelo ensino sente a alma cansar. Relatórios recentes da saúde pública mostram o que vivemos na pele: crescem os afastamentos por depressão, ansiedade, burnout e episódios de ideação suicida entre educadores da rede paulista (SÃO PAULO, 2023).

Florestan Fernandes (1979) já observava que, quando a sociedade se encontra desgastada, a escola acaba refletindo esse desgaste. E o professor, em vez de ser reconhecido como trabalhador intelectual, vira alvo de tensões que não nasceram na escola, mas desembocam nela. A desvalorização, somada à desigualdade e ao desencanto social, transforma a sala de aula em um campo de microviolências cotidianas, que corroem devagar o sentido de permanecer na profissão.

Nietzsche, ao falar das “feridas silenciosas da alma”, talvez não imaginasse um professor diante de uma sala onde o desrespeito se normalizou — mas sua ideia ajuda a entender esse esgarçamento. A repetição do desprezo diminui a força de qualquer ser humano. E muitos educadores, soterrados por pequenas humilhações diárias, vão perdendo o brilho que um dia os trouxe ao magistério (NIETZSCHE, 1887, p. 42).

A literatura educacional contemporânea confirma aquilo que todos nós, docentes, já sabemos de memória: o adoecimento emocional avança. Os afastamentos por sofrimento psíquico ultrapassam 20% em alguns segmentos, especialmente entre os professores dos anos iniciais (SÃO PAULO, 2023). Em situações extremas, quando o corpo já não responde e a esperança se estreita, surgem pensamentos que não deveriam visitar ninguém — menos ainda quem dedica a vida à formação de outras vidas.

Marx e Engels (1982) lembram que nenhum trabalhador suporta indefinidamente condições que negam sua humanidade. Quando a violência simbólica se torna regra, o trabalho perde seu caráter criador e vira fonte diária de sofrimento. A sala de aula, espaço que deveria inspirar, transforma-se para muitos em território de tensão permanente.

Há também uma dimensão ética, moral e social nessa discussão. Alguns pensadores enfatizam que só um sujeito que se reconhece digno pode permanecer de pé diante do mundo. Sem necessidade de recorrer a teorias mais duras, pode-se extrair desse raciocínio um princípio fundamental: a escola deve ser um espaço onde o docente é tratado com dignidade. Não se trata de privilégio; trata-se de humanidade básica.

E aqui cabe uma reflexão mais profunda, discreta, mas necessária — uma compreensão de que a disputa pelo respeito ao professor é, ao mesmo tempo, uma disputa pela direção moral da sociedade. Quando a escola falha em proteger o educador, ela entrega sua própria função formadora a uma lógica que naturaliza a desordem e enfraquece a capacidade coletiva de pensar. Em tempos assim, pequenos gestos de solidariedade, apoio mútuo, organização coletiva e firmeza ética tornam-se formas de resistência — silenciosas, sim, mas politicamente significativas.

Experiências históricas mostram que escolas estruturadas em cooperação e sentido comunitário tendem a amparar melhor seus educadores. Em período revolucionário, Lênin defendia que a educação deveria fortalecer o trabalhador, nunca destruí-lo, construindo escolas que fossem verdadeiras comunidades humanas (LÊNIN, 1919). Essa consideração, mais ética que política, nos inspira a pensar que nenhum docente deveria enfrentar sozinho a angústia de ensinar em meio ao caos.

Para reconstruir o ambiente escolar, políticas educacionais baseadas na dignidade e no cuidado podem incluir:

• equipes permanentes de mediação de conflitos;
• psicólogos escolares também voltados ao bem-estar dos educadores;
• protocolos sérios e aplicáveis contra bullying de alunos e responsáveis;
• fortalecimento de coletivos docentes e redes de apoio emocional;
• valorização pública e material do professor;
• transformação da cultura escolar para que o respeito não dependa do humor do dia.

A saúde emocional do professorado é questão de vida — literalmente. E nenhuma sociedade pode sonhar com futuro se abandona aqueles que ensinam a caminhar até ele.

**REFERÊNCIAS**

ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. A ideologia alemã. São Paulo: Martins Fontes, 1982.
FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
LÊNIN, Vladimir Ilitch. Sobre a escola e a educação. Moscou: Progress, 1919.
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral. São Paulo: Companhia das Letras, 1887.
SÃO PAULO. Secretaria Municipal da Educação. Relatório sobre adoecimento docente e afastamentos por transtornos emocionais. São Paulo, 2023.

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