Bairro Ermelino Matarazzo - Um Bairro Operário

 

Casas de Eternit e Promessas
Por Ronaldo Marcelo Pacce


As casas surgiam do barro como formigueiros humanos. Não havia arquitetura, havia urgência. As tábuas vinham de sobras de madeira, os tijolos eram carregados em carrinhos de mão, e os telhados de eternit pareciam abrigar mais promessas do que pessoas. Em cada lote, um mundo nascia — torto, mas inteiro.

Ermelino Matarazzo era o lugar onde a cidade ainda não tinha chegado, mas a vida já insistia em começar. Vinha gente do Piauí, da Paraíba, de Pernambuco. Gente que andava de trem com mais sonho do que bagagem, e que ao chegar, achava no pó da Zona Leste um chão para chamar de futuro.

A rua não tinha nome, às vezes nem luz. Mas havia fogueiras acesas nas noites frias, havia panela comunitária quando alguém precisava, e havia silêncio quando era preciso respeitar a dor do outro. Nas casas sem reboco, moravam famílias inteiras em um só cômodo — e ainda assim, sobrava espaço para fé. O chão era de cimento cru, mas os olhos eram de esperança bruta.

O vizinho ajudava a levantar a parede, o outro emprestava a escada, e o primeiro batismo d'água era feito em latas de tinta recicladas. As promessas moravam nos puxadinhos: “ano que vem a gente termina o quarto”; “um dia coloco piso”; “quando Deus quiser, isso aqui vira lar de verdade”. Mas a verdade é que já era. Mesmo inacabada, aquela era a casa possível. E era inteira.

Camus escreveu que o homem é a única criatura que se recusa a ser o que é. Talvez por isso construíssemos tanto. Cada casa era um manifesto contra a condição imposta. Contra o “nada a oferecer” das estruturas, das políticas públicas ausentes, dos mapas que nos deixavam fora da cidade. Mas a vida acontecia mesmo assim. Embaixo de telhas de amianto, entre escorpiões no quintal e roupas lavadas no balde.

O bairro crescia à força de martelo, à base de promessa. Não havia planta aprovada nem escritura, mas havia pertencimento. O cimento secava antes que o desalento pudesse tomar conta. E mesmo quando chovia dentro de casa, havia riso. Um riso cético, de quem sabe que o mundo não vai mudar por nós — e, ainda assim, insiste em levantar mais um tijolo.

Hoje passo por essas mesmas ruas e vejo algumas daquelas casas ainda de pé. Outras foram engolidas por prédios ou esquecidas por reformas que apagaram a memória. E penso: o que resta de nós, quando até as paredes que ergueram nossos sonhos já não contam mais nossa história?

Talvez nada. Talvez apenas esse texto. Um fio tênue entre o que fomos e o que não saberemos mais ser. Mas por ora, que ele sirva como prova de que houve sim, um tempo em que os telhados de eternit cobriam mais do que lares: cobriam a mais radical forma de existir — aquela que, mesmo sabendo da precariedade de tudo, insiste em seguir.


Ronaldo Marcelo Pacce

O presente texto, embora memorialista, dialoga filosoficamente com o pensamento de Albert Camus sobre a condição humana e o absurdo da existência, incorporando suas ideias de forma indireta e reflexiva.


Referência bibliográfica:

CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Trad. Ari Roitman e Paulina Watch. São Paulo: Record, 2004.

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